quinta-feira, 30 de junho de 2011

Sapato


Boa música

Alexis Jordan
Good Girl


Boa música

Oração
A banda mais bonita da cidade



quarta-feira, 29 de junho de 2011

Boa música

U2
With Or Without You
(Boyce Avenue & Kina Grannis acoustic cover)




terça-feira, 28 de junho de 2011

quarta-feira, 22 de junho de 2011

QUE SAUDADE DAS MINHAS BELINAS!

QUE SAUDADE DAS MINHAS BELINAS!
por Arnaldo Keller

Estamos passando umas férias na fazenda em que vivi e trabalhei por 25
anos. Só há uns seis anos é que voltei a morar na megalópole
atrapalhada paulistana.


Como é bom aqui na roça!


E aí, circulando um dia pela querida e tranquila Pirassununga, meus
olhos grudaram numa bela Belina. Era das últimas que foram fabricadas,
daquelas que vinham com o motor AP1800 da VW. Essa deve ser de 1989,
90 ou 91, porque foi só nesses anos que ela veio com esse motor da VW.
Foi o começo da Autolatina, união temporária da Ford e VW brasileiras.
Essa perua tinha os dois bons mundos da época: o bom motor e câmbio da
VW e o bom conforto e acabamento da Ford.


Essa estava chique, conservadíssima, cor vinho, chique, interior cinza
claro, estofamento jóia, painel completo e impecável, console e
alavanca de câmbio como novos, aquela alavanca curtinha, diferente das
Belinas antigas que tinham o motor CHT e cuja alavanca vinha de lá de
baixo pivotando no assoalho.


Fiquei um tempo babando na Belina.


Os autoentusiastas dirão: onde já se viu um autoentusiasta babando
numa perua véia dessas?


Paciência, que seja, não estou nem aí, mesmo porque tive cinco Belinas
ao longo dos anos e gosto mesmo e boa. E a única que não tive foi uma
igual a essa aí, com motor VW, daí a vontadinha encruada até hoje.
Tive a 1,4 de tampa de válvulas azul, a 1,6 de tampa de válvulas
dourada, a 1.6 CHT de tampa de válvulas preta, e não tive a 1,8 VW.


E depois fiquei pensando: esse foi o carro que mais tive; já disse,
tive cinco, e isso até agora, porque se bobear compro outra.


E não é porque era uma perua boa para carregar as tralhas de um moço
casado e com três filhas, não, porque ainda solteiro e com vinte anos
comprei minha primeira Belina.


Vamos lá, enumeremo-las;


A primeira que tive foi a primeira Belina II que saiu, 1978. Tinha
motor 1,4-litro e 4 marchas, ainda a mesma mecânica do Corcel I. Era
azul-marinho e modelo standard, peladona, bancos pretos de plástico.
Ótimos esses bancos de plástico, pois eu saía do mar e sentava direto,
na boa, escorrendo água e nem aí. Era bom também pra levar cachorro,
já que pra levar a namorada depois era só passar um pano úmido mais ou
menos limpo pra espalhar os pelos e as babas. O único defeito é que se
batesse o sol no encosto e você entrasse com tudo sem camisa aquilo
estava pelando e tostava as costas feito chapa de fogão a lenha e a
gente dava um pulo de meter a cabeça no teto. Uma vez cheguei a olhar
no encosto pra ver se não tinha ficado pele grudada no lazarento. Mas
esse plástico lazarento era bom e eu gostava. Estava certinho pra vida
despreocupada que eu levava na época, dessas de andar com o carro sujo
e nem aí, baixar o banco de trás e meter a monoquilha de 7 pés lá
atrás, a cadela viralatas Laika ao lado, e boa.


Mas a mecânica sempre tinindo, sempre afinadinha.


E não gastava nada, tipo 14 a 15 km/l de gasolina amarela na estrada.
O galho é que ela andava pouco. Era muito carro para pouco motor.
Andar a 125 km/h no velocímetro era o seu limite, já que a 4ª marcha
era curta e acima disso o motor esgoelava.


O jeito foi nela colocar o carburador duplo Weber que eu tirara do
Fiat 147, motor de1.050 cm³, que tivera antes. O Fiat tinha sido
levemente preparado pelo Silvano Pozzi, só taxa mais alta e esse Weber
36. E fiz o mesmo na Belina: taxa mais alta e o Weber. Aí ela passou a
andar bem. Arrancava junto com a Belina II 1,6 – que logo em seguida,
em 1979, tinha sido lançada.


O galho era a falta da 5ª marcha. Mesmo arrancando mais ela continuou
com o mesmo limite de velocidade cruzeiro, já que, claro, ela
continuava a esgoelar se tocada acima dos tais 125 km/h.


E naquele tempo, viajar à noite, coisa que sempre gostei, era muito
tranquilo e dava pra ir rápido, com pouco tráfego, só uns poucos
caminhões com bons motoristas, e praticamente nenhum guarda. Não havia
esses raios de radares e os policiais rodoviários se limitavam a nos
controlar de dia na base do cronômetro mesmo.


Ao lado da pista colocavam dois marcos – tipo uma lambida de tinta
branca –, normalmente nas descidonas, e sabendo a distância de um
marco ao outro ficavam de olho num carro "suspeito" que no olhômetro
achassem estar acima da velocidade permitida. Quando o infeliz passava
pelo primeiro marco eles abriam o cronômetro, e era batata, pegavam
mesmo, e era um sabão de espumar que nos passavam. Não era só esse
lance de chegar uma multa em casa, bem impessoal, um castiguinho
relativo. Era sabão mesmo, broncas das boas da gente se desculpar
arrependido feito coroinha que comeu hóstia escondido: "Sim senhor,
seu guarda. Não faço mais isso, não, seu guarda. O senhor tem toda a
razão. É que eu etcétera e tal...."


Com essa Belina azul a Laika e eu inauguramos a Rodovia dos
Bandeirantes um dia antes do General Figueiredo. A gente vinha tarde
da noite esgoelando a Belina, tocando pra São Paulo, quando vi que
tinha uma brecha no cercado que haviam feito no acesso para a
Bandeirantes. Eu sabia que no dia seguinte ela seria inaugurada e
ansiava por pegar esse estradão bem-vindo. E sguínch! Freada. A Belina
encolheu as cadeiras, rebolou, e passamos e seguimos faceiros, a Laika
muito feliz ao meu lado, a gente mantendo uma conversa de nível bem
elevado, ela dizendo que os cachorros são mesmo uns cachorros, que só
iam atrás dela quando ela estava no cio e tudo – falava pra cacete
essa cadela –, e eu meio que desconversando, como se eu fosse
diferente, sensível e tal, que pra mim namorar era coisa séria e tal.
E o estradão estava maravilhoso!


Ninguém ninguénzinho, escuridão breu, tudo pintadinho brilhando,
olhos-de-gato de monte brilhando, placas novinhas, e a Laika e eu lá,
donos do estradão e o Figueiredo que se explodisse com a cupinchada
dele lá, os lambe-botas. Sim senhor! Era nóis! Estrada nossa!


Até que do meio daquele breu os faróis iluminam um troço que se mexe e
me apareceu um guarda todo de couro barra pesada com quepe e tudo e um
trabuco calibre .12 apontando pra minha cara! Sguínch!


— Que é que você tá fazendo aqui, ô maluco! – o guarda, fulo da vida,
gritou, apontando aquele canhão grosso pra mim, e pior, pra minha
cadela!


A Laika já latiu um monte de xingamentos pro guarda, e eu: — Calma,
Laika, calma. Deixa que eu resolvo, fica na sua, benzinho, e tal.


— Pois é, seu guarda. Confesso. Não aguentei e estou inaugurando essa
estrada. Fazer o quê?
— Volta pra trás, imbecil – ele ordenou.
— Se eu voltar vai acabar a gasolina, olha aí, tá no um quarto, e vou
ficar parado na estrada e amanhã quando o manda-chuva for inaugurar
isso aqui com banda de música e tudo e depois rodar com o buzão vai
ver que quem inaugurou fomos nós, a Laika e eu. É pior, seu guarda.
Deixa eu cair fora, seu guarda, eu me escafedo rapidinho.
— Humm, hummm.... – o guarda ponderando. Então some daqui! Eu não te
vi! Some daqui o quanto antes, entendeu? Some, cara, some, te manda.


Nos mandamos e a Laika e eu rimos pracacete e soltamos uivos bem legais.


E foi assim que a Rodovia dos Bandeirantes foi inaugurada.


Essa primeira Belina me serviu por uns dois anos, até que não aguentei
e a troquei por uma branca com motor 1,6 de tampa de válvulas dourada,
porque eu estava muito a fim de uma com aquele e câmbio legal de 5
marchas, meio que novidade na época. Essa andava legal: 130 a 135 km/h
de cruzeiro e gastava só um pouquinho a mais de gasolina. Eu nem
acreditava: carrão, com banco de veludo, chiquésimo, maior luxo, tanto
luxo que achei até demais, achei que eu estava me afrescalhando e devo
ter me afrescalhado um pouco, já que fiquei uma vara quando meu irmão
a encheu de patos.


Bem, na verdade, cientificamente falando não eram só patos, porque
tinha uns vinte patos misturados com marrecos e gansos. Pois é, eu
vinha aqui pra fazenda e meu irmão me pediu carona, o sacana, e disse
que não era pra eu esquentar a cabeça que ele carregaria o carro e
tal, e eu logo fiquei cabreiro, o fiadamãe é preguiçoso pracaramba e
não costumava ser gentil assim comigo, educado, sem me meter e bica no
traseiro nem nada, me tratando feito gente. Era pra desconfiar ou não?
Era sim! Ô se era!


Mas não deu outra: já antes de entrar na Belina já senti aquele aroma
de bosta de pato, aroma que de tão espesso até dava pra ver saindo
azulado pela janela, e aquela pataiada grasnando lá dentro numa
tamanha bateção de asas que eu estava vendo que aquela perua ia
decolar se eles se organizassem pra bater em conjunto aquele monte de
asas. Flép, flép, flép! Quáák, quáák!


Se eu estivesse com minha espingarda cartucheira nessa hora essa
pataiada ia ver o que era bom pra tosse! Ia voar mais pena do que já
estava voando.


PQP! haja paciência!


Tá bom, o jeito era trazer aquele monte de pato aqui pra fazenda pro
meu irmão soltar a pataiada no lago. O cara cismou e não tinha jeito,
além do mais o estrago já estava feito, porque esse bichos cagam sem
parar e já tinham cagado até nas janelas e no teto; o bicho caga pra
cima, inacreditável! PQP!


Olha, o prezado leitor pode rir à vontade da desgraça alheia; pode ir
rindo aí, mas por enquanto quem ri quieto sou eu, tem coisa ainda
pior, tem sim, como quando esse meu irmão me fez trazer aqui pra
fazenda um filhotão de tamanduá-bandeira, um desgraçado dum filhotão
que comia uma desgraçada de uma ração tipo papinha com leite que o
fazia soltar puns tão fedidos que só quem já sentiu o cheiro do pum de
tamanduá filhotão é que sabe, e não vou descrever aqui como é que é
que fede esse negócio porque não seria de bom tom, e bom tom é comigo
mesmo. Mas, ó, só dou uma deixa: ovo podre é perfume da Chanel perto
daquilo.


E meu irmão e eu na Belina branca, 1979, antes modelo de luxo, agora
um transporte de patos desesperados e cagões de jatos quentes pra todo
lado.


E pau na Belina, pé cravado na tábua, tipo 150, com tudo quanto é
vidro aberto pra dispersar o gás sufocante e a pataiada em pânico se
esgoelando mais que o motor 1,6 de tampa de válvulas dourada – na
mesma rodovia que a Laika e eu havíamos inaugurado antes que o General
Figueiredo.


Lá pelas tantas um guarda de botas e apito e com o bração esticado me
esbarrou o caminho, sinalizando "Pára aí, encosta!"


Parei.


— O senhor estava a tantos por hora, muito acima dos 120 permitidos e
tal e coisa – ele já começou com o sabão.


E eu quieto, esperando o guarda se tocar da minha situação.


Até que ele se tocou, acho que respirou aquele aroma bestial que
passava pelo meu redor e ia em direção a ele, e se tocou, e parou.


— Ô cacete! Mas o que é que está acontecendo aí? – ele perguntou.


Foi a minha deixa. Fiz cara de infeliz, e estava mesmo, e bastou eu
explicar exatamente a minha situação. Não menti nem um triz, e pra
arrematar falei pra ele botar a cara pra dentro do carro pra sentir o
drama.


— Pois é, seu guarda. O senhor vai me multar, tudo bem, tá nos
conformes, mas se o senhor não me prender – eu, o meu irmão e essa
pataiada – eu vou sair daqui e vou cascar a lenha tudo de novo, e vou
no que a Belina der, porque isso daqui está inaguentável. Pode
escolher. Qualquer coisa pra é melhor que essa fedentina aqui. Manda
bala.


O cara se afastou, claro, porque ele não era trouxa, e pensou, e
pensou – a pataiada de bico aberto gritando de ensurdecer –, até que
lá de longe tomou fôlego e veio, e numa pulmonada só falou baixinho
pra mim:


— Se manda, cara! Se manda! Tô com dó de você. Vai, te arranca – e
erguendo a aba do quepe olhou feio pro meu irmão, merecidamente.


Bom, é isso aí. Me mandei mandando a lenha e deixando um rastro de
penas estrada afora.


A história do tamanduá fica pra Belina marrom cor de mecônio. Êpa!
dessa eu tinha esquecido! Então são seis Belinas e não cinco!


Depois eu conto, que agora vou tomar um banho pra ver se sai esse
cheiro de pato que paira no ar.